sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Cicloaventura de Campinas (SP) a Pederneiras (SP): 236,37 Km
Realizada em 11 de Outubro de 2009

Por: Denis Rodrigues

A idéia e a percurso...

Minha idéia de fazer uma viagem entre Campinas (SP) e Pederneiras (SP) deve ter surgido a uns 10 anos atrás pelo menos. Conheço Pederneiras desde quando era criancinha e já me aventurei muito por aquelas bandas. Lembro me até hoje de todas as minhas aventuras com os meus primos e dos bons momentos que vivi naquela cidade... Naquela época íamos de trem para lá! Isto mesmo, de trem!!! Chegavamos a viajar mais de 5 horas espremidos nos corredores até chegar a Pedercity (como diz minha prima). Bom, os tempos mudaram... E o meio de transporte também (risos)...



Estação ferroviária de Pederneiras (desativada) e uma das bonitas chácaras da cidade




Preparativos

Os preparativos para a viagem começaram com um certo tempo de antecedência quando viajei para lá, de carro, e "planilhei" todo o caminho. Anotei todos os pontos que poderia utilizar para reabastecimento de aguá e de alimentos (basicamente os postos e restaurantes que encontraria pela estrada...) assim como pontos de referência onde, caso ocorrido algum incidente, poderia utilizar para informar ao resgate onde estaria... É neste ponto que entra nosso grande amigo Sergio. Ele ficou durante o domingo acompanhando a aventura e incentivando... Antes de partir combinamos quais seriam os intervalos de tempo nos quais eu ligaria para informar se tudo estava ok. Felizmente consegui chegar ao meu destino com apenas um pneu furado! E olha que se tivesse colocado uma fita de proteção nele teria evitado até isso!

A viagem...
(Atualização!!!) Depois de  muito tempo tomei coragem (kkkk) e editei o video da Cicloaventura! Espero que gostem!



Segue o relato!

Comecei a viagem às 5h20 da manhã do dia 11 de Outubro de 2009, um pouco antes do alvorecer em Campinas. Pedalei uns 300 metros e cheguei na rodovia Anhanguera (SP-330) onde após alguns poucos momentos de reflexão (para tomar coragem né!) comecei a minha longa jornada. De manhazinha a temperatura estava amena e o dia tranquilo para pedalar apesar da Anhanguera ser certamente uma das rodovias mais movimentadas do pais... Também escolhi o domingo porque sabia que o trânsito seria menor e portanto mais sossegado para realizar a viagem. Minha primeira parada aconteceu após 56 quilômetros pedalados, perto pedágio de Limeira, no restaurante Graal. Quando lembro dela não consigo deixar de rir... Explicando, parei no posto, ao lado de uma galera que estava no local trabalhando, lavando caminhões. Até ai tudo tranquilo até que um deles, interessado neste viajante pouco comum, aproximou-se puxou conversa e começou a me perguntar de onde eu era e para onde ia... Disse a ele que era de Campinas e percebi que ele ficou impressionado, pois já estava um pouquinho longe de casa... Até ai tudo tranquilo também... (risos). Ai ele me perguntou para onde ia e para facilitar disse que ia para uma cidade do lado de Bauru. Neste momento o cara ficou eufórico! Juro! Chamou os outros colegas dele e começaram a me fazer um montão de perguntas e por ai vai... Em certo ponto disse que se eu quisesse conseguiria uma carona para mim em um dos caminhões que estavam parados lá e dai eu chegaria muito mais rápido e descansado ao meu destino... Agradeci a gentileza e expliquei para ele que desta vez dispensaria, pois tinha objetivos maiores para aquele dia que andar de caminhão!
Como o caminho era longo me despedi da galera e continuei o caminho. Após mais uns 3 km cheguei a rodovia Washington Luis (SP-310) rodovia pela qual pedalaria mais uns 50 km. Neste ponto, perto das 9h da manhã, encontrei uma estrada com pouco movimento. Percebi também que o acostamento estava mais limpo que o da rodovia Anhanguera o que certamente facilitaria o meu pedal. Passei por Cordeirópolis, Santa Gertrudes e posteriormente por Rio Claro, cidade que conheço muito bem pois estudei por 5 anos lá na UNESP. Por falar nisso sempre quiz pedalar com o pessoal que se encontrava na frente da universidade na época em que eu estudava lá mas sabe como é vida de universitário né. A grana era curta! Não tinha $$ para investir em uma bike descente... Só dava mesmo para comer e pagar as contas! Aproveitei também para me abastecer de água e comer alguma coisa, pois sabia que nos quilometros posteriores seria complicado encontrar algum lugar para repor a água e o rango...

Sai de Rio Claro com as energias renovadas pela breve pausa e pedalei em direção a primeira serrinha do percurso, que se não me engano, fica em Corumbataí. Esta primeira, com 3 km de extensão, foi suave. Principalmente porque não estava cansado e o Sol ainda não estava muito forte. Por falar em Sol não tive muita sorte no quesito subida+calor, pois sempre que pegava uma o vento cessava e as poucas nuvens do céu se abriam para ele brilhar.


Passada a subida comecei a aproveitar melhor a paisagem que avistava a partir da bike. Parei inclusive para tirar uma fotinhas! Quem já trafegou pela rodovia, próximo de Itirapina, com um pouquinho mais de tranquilidade (que nem sempre possível quando estamos de carro!) deve se lembrar que este trecho é muito bonito. Aliás, quanto mais perto de Brotas mais bonito né!
Alguns poucos quilômetro a mais e cheguei na rodovia Engenheiro Paulo Nilo Romano (SP-225). Conforme previa aquela era a hora da verdade. Se chegasse bem até ali certamente conseguiria completar o meu trajeto pois sabia que tão cedo não deixaria aquela estrada. Só nela pedalaria 92 km entre belas paisagens, suaves descidas e a serrinha de Brotas! Quando estamos de carro, indo em direção ao centro do estado, ao passar por ali temos o sentimento de estar chegando... Mas conforme disse é só um sentimento mesmo porque o carro roda roda e demora um pouquinho ainda até chegar a Jaú...






Ao chegar no quilometro 126 algo que eu previa aconteceu. Acabei ficando praticamente sem água. Imaginei que isso aconteceria porque conheço o trecho e sabia que não teria nenhum ponto de reabastecimento. Conforme tinha planejado desde o princípio parei no posto de pedágio em Itirapina e o pessoal gentilmente me ofereceu água gelada! Muuuito bom! Neste ponto já tinha passado um pouquinho da metade do percurso e pelo pique já sabia que conseguiria chegar se nenhum imprevisto acontecesse!

Continuei a viagem e cruzei por um dos pontos mais bonitos da estrada. Passei por um corredor de árvores que margeiam a rodovia. Elas foram providenciais pois o calor estava forte e eu estava precisando de uma pausa para me refrescar. Aproveitei então para parar em uma das barraquinhas e comprar um delicioso suco de laranja. Pensei inclusive em comprar um saco de laranja, de 10 quilos mais ou menos, para aproveitar já que o preço estava bom mas achei melhor deixar para a próxima... ( - ;
Aproveite a parada ainda para ligar em casa e informar que estava tudo bem. É legal fazer isso pois deixa as pessoas que ficaram para trás mais tranquilas em relação ao que está acontecendo...


Por volta da 15h cheguei a um dos pontos mais esperados da viagem: A serrinha de Brotas. Sabia desde o princípio que ela seria hard para subir, principalmente porque neste ponto já teria pedalado mais de 170 km... Para piorar justo naquela hora o vento desapareceu e o Sol raiou com força total! Quem pedala ou faz algum outro esporte ao ar livre vai entender o que eu vou dizer! Parecia que eu ia derreter na subida! Sentia o calor subindo pelo meu corpo e fervendo a cabeça. Para não arriscar abusei da água e do isotônico e pedalei a subida a uns 8 km/h no máximo até alcançar uma área de descanso que existe lá perto do topo. Neste ponto achei melhor parar uns 10 minutos para evitar o superaquecimento da máquina e para esticar as pernas um pouquinho...
... e como dizem que não se vive só se sombra e água fresca (suco vale?) peguei a magrela e continuei o percuro já imaginando quanto tempo mais levaria até chegar a Jaú... Neste ponto, com quase 200 km, comecei a sentir os primeiros sinais de cansaço. Não quando estava pedalando, mas quando por algum motivo parava um pouquinho... As pernas estavam ok mas o corpo já estava cansado. Psicologicamente também estava bem. Acho que planejei tanto esta cicloaventura, pensei tanto nela, que por nenhum momento sequer pensei em desistir! Isso foi muito bom pois para fazer tanto esforço físico a mente precisa esta inteira... Assim ela pode ajudar o corpo a dar aquele gas extra fazendo com que ele aguente um pouquinho mais até atingir o objetivo!
Achei legal também uma uma outra coisa, o pessoal que passa de bike (a maioria "speederos") sempre cumprimenta, sempre dá um alô. As vezes na cidade o pessoal passa e nem faz um jóia... Achei legal isso na galera que pedala pela estrada!

Após finalmente chegar em Jaú, com mais de 200 km pedalados, consegui encontrar um posto aberto no domingão a tarde. Já estava sem aguá e precisava repor o meu estoque pois tinha ainda mais uns 35 km a percorer até Pedercity! Assim como no primeiro posto um dos frentistas se interessou pela viagem! Quando disse que estava vindo de Campinas ele disse que não acreditava, pois já tinha vivido na cidade e sempre achou que seriam necessários uns 3 dias para fazer este trecho de bike... Expliquei para ele que pedalava sempre, que me alimentava bem e blá blá blá... mas ele só acreditou mesmo quando mostrei as fotos do percurso. Neste momento fiquei pensando em como estamos ficando preguiçosos e comodistas com os confortos da sociedade atual... O pessoal só que andar de carro para todo lado! As aventuras agora são através dos video games... Qualquer coisa um pouquinho diferente disso já é vista como uma grande epopéia... Pessoalmente acho um exagero isso! Fico imaginando as aventuras, as dificuldades e os perigos pelos quais os Bandeirantes e, posteriormente, os Tropeiros enfrentaram por este Brasil... quando não existiam nem estradas e nem hospitais...
Deixei o posto com ele desejando boa sorte e me dando os parabéns pela viagem. Isso me animou um pouquinho e comecei o trecho final em direção a Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (BR-369/SP-225).

Cheguei na rodovia ainda com Sol mas este já estava quase tocando a linha do horizonte. Sabia que teria mais uns 40 minutos no máximo de claridade e calculei que pela distância que faltava chegaria uns 10 minutos após a noite surgir. Bom, esperava, pois para minha grande satisfação o meu querido pneu traseiro furou! Foi incrível mas não reclamei! Sabia que não iria adiantar nada! Mas foi uma pena, pois faltavam apenas uns 17 km para atingir o meu objetivo... Virei a bike, arranquei a roda e troquei a camara de ar em tempo recorde. Montei tudo novamente e segui o caminho. Comecei a sentir o gostinho da vitória quando avistei o rio Tiete, pois atravessando ele já estaria oficialmente em Pederneiras! Apesar do Sol já ter se posto consegui tirar uma foto do pessoal que passeava de lancha pelo rio. Eles me viram em cima da ponte e retribuiram a foto com alguns acenos.


Pedalei mais um pouquinho e peguei a rodovia Pederneiras - Macatuba, pois achei que seria o trecho mais tranquilo para pedalar. Ledo engano! Eu que já tinha pedalado 230 km em acostamentos que pareciam tapetes enfrentei uma estada relativamente movimentada e cheia de buracos! Um prato cheio para estragar uma aventura praticamente perfeita! Felizmente pedalei com muito cuidado e nada de mal aconteceu! Entrei então na rotatória do porto intermodal do Tiete, sentido Pederneiras, sabendo que não mais de 1000 metros me separavam de um bom banho e de uma cama confortável. Aproveitei este finalzinho da aventura para relembrar de todos os trechos pelos quais passei, de todo o planejamento envolvido e para refletir também sobre como é bom ter saúde. Nestes momentos sempre me vem a mente uma reflexão que compartilho aqui: "Fico imaginando se estivesse preso em uma cama vendo os dias passarem. Um após o outro... Certamente imaginaria que, se tivesse saúde, meus dias seriam diferentes... faria grandes aventuras e enfrentaria grandes desafios... Bom, felizmente nunca passei por esta situação e é por isso que aproveito minha vida o melhor que posso!"

Meu grande amigo Zé Luiz!
Cheguei ao meu destino finalmente! Fui recepcionado muito bem mas percebi que não estava tão comunicativo e brincalhão como costumo ser devido ao cansaço... A noite, ao contrário do que se possa imaginar, não comi feito um leão e não dormi como um anjo. Para ser bem preciso fiquei até meio indisposto e minha noite de sono não foi tão boa assim. Acho que o calor exigiu demais de mim... No outro dia entretanto acordei relativamente bem! Apesar de todo o esforço que tive que realizar valeu muito a pena, pois as dores se vão e os louros ficam!

Fiquei hospedado na casa da minha tia Maura e do seu companheiro Zé Luiz. Este, diga se de passagem, é um grande homem (e com muitas histórias para contar também!) Me divirto muito com a sua companhia quando vou para lá! Ele tem sempre algo divertido para contar e adora moda de viola! Acho que tem mais de 50 CDs na sua estante e sempre que vamos até Pederneiras ele coloca algumas delas para escutarmos. Fiquei muito agradecido pela hospedagem e por ele ter me conseguido uma caixa de bike que eu usaria no dia posterior para trazer a magrelinha até Campinas novamente. Valeu!



Mais alguns dados
Realizei o percurso a uma velocidade média de 17,2 km/h. No começo ela era maior mas no finalzinho já estava economizando tudo que podia... Daí a média caiu um pouquinho. A distância percorrida entre a minha casa em Campinas e o meu destino foi de 236,37 km (uuuuhhhuuu, novo reeeeecorde!) e realizei o percuros em 13h40. Tem também o odômetro da bike! Acho que nestes 2 últimos anos de pedal girei mais de 6.000 km mais ou menos...





6134,4km


Dicas para quem quer se aventurar...
Este já é o terceiro pedal com mais de 200 km que faço. Não é lá "grandes coisas" mas acredito que já tenho algumas dicas que podem ajudar:
  1. Se for fazer um percurso longo planeje! Sair na loucura só dá merd@! Pense no que levar, onde se reabastecer, faça manutenção na bike...
  2. Treine. Sem uma condição física razoável não chega dependendo da distância!
  3. Tenha paciência. No começo o pedal gira leve mas se não poupar energia no começo falta no final!
  4. Equipamento de segurança e sinalização é fundamental! Anote ai: Capacete, luva, óculos, roupas confortáveis, farol, pisca traseiro...
  5. É sempre bom não pedalar sozinho! Se tiver apoio e celular melhor ainda!

Agradecimentos

Sergio, valeu por ficar no apoio! Sabia que caso precisasse era só ligar!
Carol, obrigado pelo celular!
Zé Luiz, valeu pelas acomodações e pela ajuda com a logística!
Marcelo, valeu a carona até a rodoviária!

Quanto aos que me criticaram por excesso de zelo, preguiça ou conservadorismo desejo-lhes que seus dias sejam felizes e que a vida não passe em branco, pois, afinal, vida só tem uma!

Carpe Diem

Até a próxima! ( - ;